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14 de outubro de 2013

Cartoon

5 de junho de 2013

Gerador de Contos de Fadas

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6 de dezembro de 2011

A Vida Eterna

É opinião unânime que não há estado comparável àquele que nem é sono nem vigília, quando, desafogado o espírito de aflições, procura algum repouso às lides da existência. Eu de mim digo que ainda não achei hora de mais prazer, sobretudo quando tenho o estômago satisfeito e aspiro a fumaça de um bom charuto de Havana.


Depois de uma ceia copiosa e delicada, em companhia de meu excelente amigo o dr. Vaz, que me apareceu em casa depois de dois anos de ausência, fomos eu e ele para a minha alcova, e aí entramos a falar de coisas passadas, como dois velhos para quem já não tem futuro a gramática da vida.


Vaz estava assentado numa cadeira de espaldar, toda forrada de couro, igual às que ainda hoje se encontram nas sacristias; e eu estendi-me em um sofá também de couro. Ambos fumávamos dois excelentes charutos que me haviam mandado de presente alguns dias antes.


A conversa, pouco animada ao princípio, foi esmorecendo cada vez mais, até que eu e ele, sem deixarmos o charuto da boca, cerramos os olhos e entramos no estado a que aludi acima, ouvindo os ratos que passeavam no forro da casa, mas inteiramente esquecidos um do outro.


Era natural passarmos dali ao sono completo, e eu lá chegaria, se não ouvisse bater à porta três fortíssimas pancadas. Levantei-me sobressaltado; Vaz continuava na mesma posição, o que me fez supor que estivesse dormindo, porque as pancadas deviam ter-lhe produzido a mesma impressão se ele se achasse meio acordado como eu.


Fui ver quem me batia à porta. Era um sujeito alto e magro embuçado em um capote. Apenas lhe abri a porta, o homem entrou sem me pedir licença, e nem dizer coisa nenhuma. Esperei que me expusesse o motivo da sua visita, e esperei debalde, porque o desconhecido sentou-se comodamente em uma cadeira, cruzou as pernas, tirou o chapéu e começou a tocar com os dedos na copa do dito chapéu uma coisa que eu não pude saber o que era, mas que devia ser alguma sinfonia de doidos, porque o homem parecia vir direitinho da Praia Vermelha.


Relanceei os olhos para o meu amigo, que dormia a sono solto na cadeira de espaldar. Os ratos continuavam a sua saturnal no forro.


Conservei-me de pé durante poucos instantes a ver se o desconhecido se resolvia a dizer alguma coisa, e durante esse tempo, apesar da impressão desagradável que o homem produzia em mim, examinei-lhe as feições e o vestuário.


Já disse que vinha embrulhado em um capote; ao sentar-se, abriu-se-lhe o capote, e vi que o homem calçava umas botas de couro branco, vestia calça de pano amarelo e um colete verde, cores estas que, se estão bem numa bandeira, não se pode com justiça dizer que adornem e aformoseiem o corpo humano.


As feições eram mais estranhas que o vestuário; tinha os olhos vesgos, um grande bigode, um nariz à moda de César, boca rasgada, queixo saliente e beiços roxos. As sobrancelhas eram fartas, as pestanas longas, a testa estreita, coroando tudo uns cabelos grisalhos e em desordem.


O desconhecido, depois de tocar a sua música na copa do chapéu, levantou os olhos para mim, e disse-me:


— Sente-se, meu rico senhor!


Era atrevimento receber eu ordens em minha própria casa. O meu primeiro dever era mandar o sujeito embora; contudo, o tom em que ele falou era tão intimativo que eu insensivelmente obedeci e fui sentar-me no sofá. Daí pude ver melhor a cara do homem, à luz do lampião que pendia do teto, e achei-a pior do que antes.


— Chamo-me Tobias e sou formado em matemáticas.


Inclinei-me levemente.


O desconhecido continuou:


— Desconfio que hei de morrer amanhã; não se espante; tenho certeza de que amanhã vou para o outro mundo. Isso é o menos; morrer é dormir, to die, to sleep; entretanto, não quero ir deste mundo sem cumprir um dever imperioso e indispensável. Veja isto.


O desconhecido tirou do bolso um quadrinho e entregou-me. Era uma miniatura; representava uma moça formosíssima de feições. Restituí o quadro ao meu interlocutor esperando a explicação.


— Esse retrato, continuou ele olhando para a miniatura, é de minha filha Eusébia, moça de vinte e dois anos, senhora de uma riqueza igual à de um Creso, porque é a minha única herdeira.


Eu me espantaria do contraste que havia entre a riqueza e a aparência do desconhecido se não tivesse já a convicção de que tratava com um doido. O que eu estava a ver era o meio de pôr o homem pela porta fora; mas confesso que receava algum conflito, e por isso esperei o resultado daquilo tudo.


Entretanto perguntava a mim mesmo como é que os meus escravos deixaram entrar um desconhecido até a porta do meu quarto, apesar das ordens especiais que eu havia dado em contrário. Já eu calculava mentalmente a natureza do castigo que lhes daria por causa de tamanha incúria ou cumplicidade, quando o desconhecido atirou-me estas palavras à cara:


— Antes de morrer quero que o senhor se case com Eusébia; é esta a proposta que venho fazer-lhe; sendo que, no caso de aceitar o casamento, já aqui lhe deixo este maço de notas do banco para alfinetes, e no caso de recusar mando-lhe simplesmente uma bala a cabeça com este revólver que aqui trago.


E pôs à mesa o maço de bilhetes do banco e o revólver engatilhado.


A cena tomava um aspecto dramático. O meu primeiro ímpeto foi acordar o dr. Vaz, a ver se ajudado por ele punha o homem pela porta fora; mas receei, e com razão, que vendo um gesto meu nesse sentido, o desconhecido executasse a segunda parte do seu discurso.


Só havia um meio: ladear.


— Meu rico sr. Tobias, e inútil dizer-lhe que eu sinto imensa satisfação com a proposta que me faz, e está longe de mim a idéia de recusar a mão de tão formosa criatura, e mais os seus contos de réis. Entretanto, peço-lhe que repare na minha idade; tenho setenta anos; a sra. D. Eusébia apenas conta vinte e dois. Não lhe parece um sacrifício isto que vamos impor à sua filha?


Tobias sorriu, olhou para o revólver, e entrou a tocar com os dedos na copa do chapéu.


— Longe de mim, continuei eu, a idéia de ofendê-lo; pelo contrário, se eu consultasse unicamente a minha ambição não diria palavra; mas é no interesse mesmo dessa gentilíssima dama, que eu já vou amando apesar dos meus setenta, e no interesse dela que eu lhe observo a disparidade que entre nós existe.


Estas palavras disse-as eu em voz alta a ver se o dr. Vaz acordava; mas o meu amigo continuava mergulhado na cadeira e no sono.


— Não quero saber de sua idade, disse Tobias pondo o chapéu na cabeça e segurando no revólver; o que eu quero é que se case com Eusébia, e hoje mesmo. Se recusa, mato-o.


Tobias apontou-me o revólver. Que faria eu naquela alternativa, senão aceitar a moça e a riqueza, apesar de todos os meus escrúpulos?


— Caso! exclamei.


Tobias guardou o revólver na algibeira, e disse:


— Pois bem, vista-se.


— Já?


— Sem demora. Vista-se enquanto eu leio. Levantou-se, foi à minha estante, tirou um volume do D. Quixote, e foi sentar-se outra vez; e enquanto eu, mais morto que vivo, ia buscar ao guarda-roupa a minha casaca, o desconhecido tomou uns óculos e preparou-se para ler.


— Quem é este sujeito que está dormindo tão tranqüilo? perguntou ele enquanto limpava os óculos.


— É o dr. Vaz, meu amigo; quer que lhe apresente?


— Não, senhor, não é preciso, respondeu Tobias sorrindo maliciosamente.


Vesti-me com vagar para dar tempo a que algum incidente viesse interromper aquela cena desagradável para mim. Além disso estava trêmulo, não atinava com a roupa, nem com a maneira de vestir.


De quando em quando deitava um olhar para o desconhecido, que lia tranqüilamente a obra do imortal Cervantes.


O meu relógio bateu onze horas.


Subitamente lembrou-me que, uma vez na rua, podia eu ter o recurso de encontrar um policial a quem comunicaria a minha situação, conseguindo ver-me livre do meu importuno sogro.


Outro recurso havia, e melhor que esse; vinha a ser acordar o dr. Vaz na ocasião da partida (coisa natural) e ajudado por ele desfazer-me do incógnito.


Efetivamente, vesti-me o mais depressa que pude, e declarei-me às ordens do sr. Tobias, que fechou o livro, foi pô-lo na estante, rebuçou-se no capote, e disse:


— Vamos!


— Peço-lhe entretanto para acordar o dr. Vaz, que não pode ficar aqui, visto que tem de voltar para casa, disse-lhe eu dando um passo para a cadeira onde dormia o Vaz.


— Não é preciso, atalhou Tobias; voltamos dentro de pouco tempo.


Não insisti; restava-me o recurso do policial, ou de algum escravo se pudesse falar-lhe a tempo; o escravo era impossível. Quando saímos do quarto o desconhecido deu-me o braço e desceu comigo rapidamente as escadas até a rua.


À porta de casa havia um carro.


Tobias convidou-me a entrar nele.


Não tendo previsto este incidente, senti fraquear-me as pernas e perdi de todo a esperança de escapar do meu algoz. Resistir era impossível e arriscado; o homem estava armado com um argumento poderoso; e além disso, pensava eu, não se discute com um doido.


Entramos no carro.


Não sei quanto tempo andamos, nem por que caminho fomos; calculo que não ficou no Rio de Janeiro canto por onde não passássemos. No fim de longos e aflitivos séculos de angústia, parou o carro diante de uma casa toda iluminada por dentro.


— É aqui, disse o meu companheiro, desçamos.


A casa era um verdadeiro palácio; a entrada era ornada de colunas de ordem dórica, o vestíbulo calçado de mármore branco e preto, e iluminado por um magnífico candelabro de bronze de forma antiga.


Subimos, eu e ele, por uma magnífica escada de mármore, até o topo, onde se achavam duas pequenas estátuas representando Mercúrio e Minerva. Quando chegamos ali o meu companheiro disse-me apontando para as estátuas:


— São emblemas, meu caro genro: Minerva quer dizer Eusébia, porque é a sabedoria; Mercúrio, sou eu, porque representa o comércio.


— Então o senhor é comerciante? perguntei eu ingenuamente ao desconhecido.


— Fui negociante na Índia.


Atravessamos duas salas, e ao chegarmos à terceira encontramos um sujeito velho, a quem Tobias me apresentou dizendo:


Aqui está o dr. Camilo da Anunciação; leve-o para a sala dos convidados, enquanto eu vou mudar de roupa. Até já, meu caro genro.


E deu-me as costas.


O sujeito velho, que eu soube depois ser o mordomo da casa, tomou-me pela mão e levou-me a uma grande sala, que era onde se achavam os convidados.


Apesar da profunda impressão que me causava aquela aventura, confesso que a riqueza da casa me assombrava cada vez mais, e não só a riqueza, senão também o gosto e a arte com que estava preparada.


A sala dos convidados estava fechada quando lá chegamos; o mordomo bateu três pancadas, e veio abrir a porta um lacaio, também velho, que me segurou pela mão, ficando o mordomo do lado de fora.


Nunca me há de esquecer a vista da sala apenas se me abriram as portas. Tudo ali era estranho e magnífico. No fundo, em frente da porta de entrada, havia uma grande águia de madeira fingindo bronze, encostada à parede, com as asas abertas, e preparando-se como para voar. Do bico da águia pendia um espelho, cuja parte inferior estava presa às garras, conservando assim a posição inclinada que costuma ter um espelho de parede.


A sala não era forrada de papel, mas de seda branca, o teto artisticamente trabalhado; grandes candelabros, magnífica mobília, flores em profusão, tapetes, tudo enfim quanto o luxo e o gosto sugerem ao espírito de um homem rico.


Os convidados eram poucos e, não sei por que coincidência, eram todos velhos, como o mordomo e o lacaio, e o meu próprio sogro; finalmente velhos como eu também.


Introduzido pelo criado, fui logo cumprimentado pelas pessoas presentes com uma atenção que me dispôs logo o ânimo a querer-lhes bem.


Sentei-me numa cadeira, e vieram reunir-se em roda de mim, todos risonhos e satisfeitos por ver o genro do incomparável Tobias. Era assim que chamavam ao homem do revólver.


Acudi como pude às perguntas que me faziam, e parece que todas as minhas respostas contentavam aos convidados, porquanto de minuto a minuto choviam sobre mim louvores e cumprimentos.


Um dos convidados, homem de setenta anos, condecorado e calvo, disse com aplausos gerais:


— O Tobias não podia encontrar melhor genro, nem que andasse com uma lanterna por toda a cidade, que digo? por todo o império; vê-se que o dr. Camilo da Anunciação é um perfeito cavalheiro, notável por seus talentos, pela gravidade da sua pessoa, e enfim pelos admiráveis cabelos brancos que lhe adornam a cabeça, mais feliz do que eu que os perdi há muito.


Suspirou o homem com tamanha força que parecia estar nos arrancos da morte. A assembléia cobriu de aplausos as últimas palavras do orador.


Articulei um agradecimento, e preparei imediatamente os ouvidos para responder a outro discurso que me foi dirigido por um coronel reformado, e outro finalmente por uma senhora que, desde a minha entrada, não tirava os olhos de mim.


— Sra. condessa, disse o coronel quando a senhora acabou de falar, confesse V. Excia. que os rapazes de hoje não valem este respeitável ancião, futuro genro do incomparável Tobias.


— Valem nada, coronel! Em matéria de noivos só o século passado os fornece capazes e bons. Casamentos de hoje! Abrenúncio! Uns peraltas todos pregadinhos e esticados, sem gravidade, sem dignidade, sem honestidade!


A conversa assentou toda neste assunto. O século dezenove sofreu ali um vasto processo; e (talvez preconceito de velho) falavam tão bem naquele assunto, com tanta discrição e acerto, que eu acabei por admirá-los.


No meio de tudo, estava ansioso por conhecer a minha noiva. Era a última curiosidade; e se ela fosse, como eu imaginava, uma beleza, e além do mais riquíssima, que poderia exigir da sorte?


Aventurei uma pergunta nesse sentido a uma senhora que se achava ao pé de mim e em frente à condessa. Disse-me ela que a noiva estava no toucador, e não tardava muito que eu a visse. Acrescentou que era linda como o sol.


Entretanto decorrera uma hora, e nem a noiva, nem o pai, o incomparável Tobias, aparecia na sala. Qual seria a causa da demora do meu futuro sogro? Para vestir-se não era preciso tanto tempo. Eu confesso que, apesar da cena do quarto e das disposições em que vi o homem, estaria mais tranqüilo se ele estivesse presente. É que ao velho já eu tinha visto em minha casa; habituara-me aos seus gestos e discursos.


No fim de hora e meia abriu-se a porta para dar entrada a uma nova visita. Imaginem o meu pasmo quando dei com os olhos no meu amigo dr. Vaz! Não pude abafar um grito de surpresa, e corri para ele.


— Tu aqui!


— Ingrato! respondeu sorrindo o Vaz, casas e não convidas ao teu primeiro amigo. Se não fosse esta carta ainda eu lá estaria no teu quarto à espera.


— Que carta? perguntei eu.


O Vaz abriu a carta que trazia na mão e deu-me para ler, enquanto os convidados de longe contemplavam a cena inesperada, tanto por eles, como por mim.


A carta era de Tobias, e participava ao Vaz que, tendo eu de casar-me naquela noite, tomava ele a liberdade de convidá-lo, na qualidade de sogro, para assistir a cerimônia.


— Como vieste?


— Teu sogro mandou-me um carro.


Aqui fui obrigado a confessar mentalmente que o Tobias merecia o título de incomparável, como Enéas o de pio. Compreendi a razão por que não quis que eu o acordasse; era para causar-lhe a surpresa de vê-lo depois.


Como era natural, quis o meu amigo que eu lhe explicasse a história do casamento, tão súbito, e eu já me dispunha a isso, quando a porta se abriu e entrou o dono da casa.


Era outro.


Já não tinha as roupas esquisitas e o ar singular com que o vira no meu quarto; agora trajava com aquela elegância grave que cabe a um velho, e pairava-lhe nos lábios o mais amável sorriso.


— Então, meu caro genro, disse-me ele depois dos cumprimentos gerais, que me diz à vinda do seu amigo?


— Digo, meu caro sogro, que o senhor é uma pérola. Não imaginará talvez o prazer que me deu com esta surpresa, porque o Vaz foi e é o meu primeiro amigo.


Aproveitei a ocasião para o apresentar a todas os convidados, que foram de geral acordo em que o dr. Vaz era um digno amigo do dr. Camilo da Anunciação. O incomparável Tobias manifestou o desejo e a esperança de que dentro de pouco tempo ficaria a sua pessoa ligada à de nós ambos, por modo que fôssemos todos designados: os três amigos do peito.


Bateu meia-noite não sei em que igreja da vizinhança. Ergueu-se o incomparável Tobias, e disse-me:


— Meu caro genro, vamos cumprimentar a sua noiva; aproxima-se a hora do casamento.


Levantaram-se todos e dirigiram-se para a porta da entrada, indo na frente eu, o Tobias e o Vaz. Confesso que, de todos os incidentes daquela noite, este foi o que mais me impressionou. A idéia de ir ver uma formosa donzela, na flor da idade, que devia ser minha esposa — esposa de um velho filósofo já desenganado das ilusões da vida —, essa idéia, confesso que me aterrou.


Atravessamos uma sala e chegamos diante de uma porta, meia aberta, dando para outra sala ricamente iluminada. Abriram a porta dois lacaios, e todos nós entramos.


Ao fundo, sentada num riquíssimo divã azul, estava já pronta e deslumbrante de beleza a sra. D. Eusébia. Tinha eu até então visto muitas mulheres de fascinar; nenhuma chegava aos pés daquela. Era uma criação de poeta oriental. Comparando a minha velhice à mocidade de Eusébia, senti-me envergonhado, e tive ímpetos de renunciar ao casamento.


Fui apresentado à noiva pelo pai, e recebido por ela com uma afabilidade, uma ternura, que acabaram por vencer-me completamente. No fim de dois minutos estava eu cegamente apaixonado.


— Meu pai não podia escolher melhor marido para mim, disse-me ela fitando-me uns olhos claros e transparentes; espero que tenha a felicidade de corresponder aos seus méritos.


Balbuciei uma resposta; não sei o que disse; tinha os olhos embebidos nos dela. Eusébia levantou-se e disse ao pai:


— Estou pronta.


Pedi que Vaz fosse uma das testemunhas do casamento, o que foi aceito; a outra testemunha foi o coronel. A condessa serviu de madrinha.


Saímos dali para a capela, que era na mesma casa, e pouco retirada; já lá se achavam o padre e o sacristão. Eram ambos velhos como toda a gente que havia em casa, exceto Eusébia.


Minha noiva deu o sim com uma voz forte, e eu com voz fraquíssima; pareciam invertidos os papéis.


Concluído o casamento, ouvimos um pequeno discurso do padre acerca dos deveres que o casamento impõe e da santidade daquela cerimônia. O padre era um poço de ciência e um milagre de concisão; disse muito em pouquíssimas palavras. Soube depois que nunca tinha ido ao parlamento.


À cerimônia do casamento seguiu-se um ligeiro chá e alguma música. A condessa dançou nm minueto com o velho condecorado, e assim terminou a festa.


Conduzido aos meus aposentos por todos os convidados, soube em caminho que o Vaz dormiria lá, por convite expresso do incomparável Tobias, que fez a mesma fineza aos circunstantes.


Quando me achei só com a minha noiva, caí de joelhos e disse-lhe com a maior ternura:


— Tanto vivi para encontrar agora, já quase no túmulo, a maior ventura que pode caber ao homem, porque o amor de uma mulher como tu é um verdadeiro presente do céu! Falo em amor e não sei se tenho direito de o fazer… porque eu sou velho, e tu…


— Cale-se! cale-se! disse-me Eusébia assustada.


E foi cair num sofá com as mãos no rosto.


Espantou-me aquele movimento, e durante alguns minutos fiquei na posição em que estava, sem saber o que havia de dizer.


Eusébia parecia estar chorando.


Levantei-me afinal, e acercando-me do sofá, perguntei-lhe que motivo tinha para aquelas lágrimas.


Não me respondeu.


Tive uma suspeita; imaginei que Eusébia amava alguém, e que, para castigá-la do crime desse amor, obrigavam-na a casar com um velho desconhecido a quem ela não podia amar.


Despertou-se-me uma fibra de D. Quixote. Era uma vítima; cumpria salvá-la. Aproximei-me de Eusébia, confiei-lhe a minha suspeita, e declarei-lhe a minha resolução.


Quando eu esperava vê-la agradecer-me de joelhos o nobre impulso das minhas palavras, vi com surpresa que a moça olhava para mim com ar de compaixão, e dizia-me abanando a cabeça:


— Desgraçado! é o senhor quem está perdido!


— Perdido! exclamei eu dando um salto.


— Sim, perdido!


Cobriu-se-me a testa de um suor frio; as pernas entraram a tremer-me, e eu para não cair assentei-me ao pé dela no sofá. Pedi-lhe que me explicasse as suas palavras.


Por que não? disse ela; se lhe ocultasse seria cúmplice perante Deus, e Deus sabe que eu sou apenas um instrumento passivo nas mãos de todos esses homens. Escute. O senhor é o meu quinto marido; todos os anos, no mesmo dia e à mesma hora, dá-se nesta casa a cerimônia que o senhor presenciou. Depois, todos me trazem para aqui com o meu noivo, o qual…


— O qual? perguntei eu suando.


— Leia, disse Eusébia indo tirar de uma cômoda um rolo de pergaminho; há um mês que eu pude descobrir isto, e só ha um mês tive a explicação dos meus casamentos todos os anos.


Abri trêmulo o rolo que ela me apresentava, e li fulminado as seguintes linhas:


Elixir da eternidade, encontrado numa ruína do Egito, no ano de 402. Em nome da águia preta e dos sete meninos do Setentrião, salve. Quando se juntarem vinte pessoas e quiserem gozar do inapreciável privilégio de uma vida eterna, devem organizar uma associação secreta, e cear todos os anos no dia de S. Bartolomeu, um velho maior de sessenta anos de idade, assado no forno, e beber vinho puro por cima.


Compreende alguém a minha situação? Era a morte que eu tinha diante de mim, a morte infalível, a morte dolorosa. Ao mesmo tempo era tão singular tudo quanto eu acabava de saber, parecia-me tão absurdo o meio de comprar a eternidade com um festim de antropófagos, que o meu espírito pairava entre a dúvida e o receio, acreditava e não acreditava, tinha medo e perguntava por quê?


— Essa é a sorte que o espera, senhor!


— Mas isto é uma loucura! exclamei; comprar a eternidade com a morte de um homem! Demais, como sabe que este pergaminho tem relação?…


— Sei, senhor, respondeu Eusébia; não lhe disse eu que este casamento era o quinto? Onde estão os outros quatro maridos? Todos eles penetraram neste aposento para saírem meia hora depois. Alguém os vinha chamar, sob qualquer pretexto, e eu nunca mais os via. Desconfiei de alguma grande catástrofe; só agora sei o que é.


Entrei a passear agitado; era verdade que eu ia morrer? era aquela a minha última hora de vida? Eusébia, assentada no sofá, olhava para mim e para a porta.


— Mas aquele padre, senhora, perguntei eu parando em frente dela, aquele padre também é cúmplice?


— É o chefe da associação.


— E a senhora! também é cúmplice, pois que as suas palavras foram um verdadeiro laço; se não fossem elas eu não aceitaria o casamento…


— Ai! senhor! respondeu Eusébia lavada em lágrimas; sou fraca, isso sim; mas cúmplice, jamais. Aquilo que lhe disse foi-me ensinado.


Nisto ouvi um passo compassado no corredor; eram eles naturalmente.


Eusébia levantou-se assustada e ajoelhou-se-me aos pés, dizendo com voz surda:


— Não tenho culpa de nada do que vai acontecer, mas perdoe-me a causa involuntária!


Olhei para ela e disse-lhe que a perdoava.


Os passos aproximavam-se.


Dispus-me a vender caro a minha vida; mas não me lembrava que, além de não ter armas, faltavam-me completamente as forças.


Quem quer que vinha andando chegou à porta e bateu. Não respondi logo; mas insistindo de fora nas pancadas, perguntei:


— Quem está aí?


— Sou eu, respondeu-me Tobias com voz doce; queira abrir-me a porta. —


Para quê?


— Tenho de comunicar-lhe um segredo.


— A esta hora!


— É urgente.


Consultei Eusébia com os olhos; ela abanou tristemente a cabeça.


— Meu sogro, adiemos o segredo para amanhã.


— É urgentíssimo, respondeu Tobias, e para não lhe dar trabalho eu mesmo abro com outra chave que possuo.


Corri à porta, mas era tarde; Tobias estava na soleira, risonho como se fosse entrar num baile.


— Meu caro genro, disse ele, peço-lhe que venha comigo à sala da biblioteca; tenho de comunicar-lhe um importante segredo relativo à nossa família.


— Amanhã, não acha melhor? disse eu.


— Não, há de ser já! respondeu Tobias franzindo a testa.


— Não quero!


— Não quer! pois há de ir.


— Bem sei que sou o seu quinto genro, meu caro sr. Tobias.


— Ah! sabe! Eusébia contou-lhe os outros casamentos; tanto melhor!


E, voltando-se para a filha, disse com frieza de matar:


— Indiscreta! vou dar-te o prêmio.


— Sr. Tobias, ela não tem culpa.


— Não foi ela quem lhe deu esse pergaminho? perguntou o Tobias apontando para o pergaminho que eu ainda tinha na mão.


Ficamos aterrados!


Tobias tirou do bolso um pequeno apito e deu um assobio, ao qual responderam outros; e daí a alguns minutos estava a alcova invadida por todos os velhos da casa.


— Vamos à festa! disse o Tobias.


Lancei mão de uma cadeira e ia atirar contra o sogro, quando Eusébia segurou-me no braço, dizendo:


— É meu pai!


— Não ganhas nada com isso, disse Tobias sorrindo diabolicamente; hás de morrer, Eusébia.


E segurando-a pelo pescoço entregou-a a dois lacaios dizendo:


— Matem-na.


A pobre moça gritava, mas em vão; os dois lacaios levaram-na para fora, enquanto os outros velhos seguraram-me pelos braços e pernas, e levaram-me em procissão para uma sala toda forrada de preto. Cheguei ali mais morto que vivo. Já lá achei o padre vestido de batina.


Quis ver antes de morrer o meu pobre amigo Vaz, mas soube pelo coronel que ele estava dormindo, e não sairia mais daquela casa; era o prato destinado ao ano futuro.


O padre declarou-me que era o meu confessor; mas eu recusei receber a absolvição do próprio que me ia matar. Queria morrer impenitente.


Deitaram-me em cima de uma mesa atado de pés e mãos, e puseram-se todos à roda de mim, ficando à minha cabeceira um lacaio armado com um punhal.


Depois entrou toda a companhia a entoar um coro em que eu só distinguia as palavras: Em nome da águia preta e dos sete meninos do Setentrião.


Corria-me o suor em bagas; eu quase nada via; a idéia de morrer era horrível, apesar dos meus setenta anos, em que já o mundo não deixa saudades.


Parou o coro e o padre disse com voz forte e pausada:


— Atenção! Faça o punhal a sua obra!


Luziu-me pelos olhos a lâmina do punhal, que se cravou todo no coração; o sangue jorrou-me do peito e inundou a mesa; eu entre convulsões mortais dei o último suspiro.


Estava morto, completamente morto, e entretanto ouvia tudo à roda de mim; restava-me uma certa consciência deste mundo a que já não pertencia.


— Morreu? perguntou o coronel.


— Completamente, respondeu Tobias; vão chamar agora as senhoras.


As senhoras chegaram dali a pouco, curiosas e alegres.


— Então? perguntou a condessa; temos homem?


— Ei-lo.


As mulheres aproximaram-se de mim, e ouvi então um elogio unânime dos canibais; todos concordaram em que eu estava gordo e havia de ser excelente prato.


— Não podemos assá-lo inteiro; é muito alto e gordo; não cabe no forno; vamos esquartejá-lo; venham facas.


Estas palavras foram ditas pelo Tobias, que imediatamente distribuiu os papéis: o coronel cortar-me-ia a perna esquerda, o condecorado a direita, o padre um braço, ele outro e a condessa, amiga de nariz de gente, cortaria o meu para comer de cabidela.


Vieram as facas, e começou a operação; confesso que eu não sentia nada; só sabia que me haviam cortado uma perna quando ela era atirada ao chão com estrépito.


— Bem, agora ao forno, disse Tobias.


De repente ouvi a voz do Vaz.


— Que é isso, ó Camilo, que é isso? dizia ele.


Abri os olhos e achei-me deitado no sofá em minha casa; Vaz estava ao pé de mim.


— Que diabo tens tu?


Olhei espantado para ele, e perguntei:


— Onde estão eles?


— Eles quem?


— Os canibais!


— Estás doido, homem!


Examinei-me: tinha as pernas, os braços e o nariz. O quarto era o meu. Vaz era o mesmo Vaz.


— Que pesadelo tiveste! disse ele. Estava eu a dormir guando acordei com os teus gritos.


— Ainda bem, disse eu.


Levantei-me, bebi água, e contei o sonho ao meu amigo, que riu muito, e resolveu passar a noite comigo. No dia seguinte, acordamos tarde e almoçamos alegremente. Ao sair, disse-me o Vaz:


— Por que não escreves o teu sonho para o Jornal das Famílias?


— Homem, talvez.


— Pois escreve, que eu o mando ao Garnier.


Machado de Assis
Publicado originalmente em Jornal das Famílias (1870)

4 de dezembro de 2011

O MUNDO DA ILUSÃO





Em algum lugar do futuro


Diguinho estava muito empolgado com o novo presente que acabara de ganhar em seu 13o aniversário. Um sistema de Realidade Virtual muito mais sofisticado que o de seus colegas. Colocando o capacete e a veste, totalmente revestida com micro pontos de pressão e temperatura, entrava em um mundo de fantasia onde podia realizar qualquer coisa.
Embora nas lojas já estivessem a venda equipamentos que permitiam até mesmo comer, dormir e fazer as demais necessidades básicas sem sair do mundo virtual, Diguinho, um menino muito inteligente, achava que já era demais. - Desse jeito nunca vão querer sair da máquina! - Ele sempre dizia.
Mesmo assim ele adorava o mundo virtual, seus programas favoritos, feitos por ele próprio, incluíam caçadas na selva, lutas entre ninjas e samurais no Japão medieval e duelo de Cavaleiros Jedi. Também usava muito um programa de relaxamento, que simulava uma praia e belíssimas garotas com as quais ele podia fazer muitas coisas.
Mas jamais quis tirar o outro pé do mundo real, achava perigoso ficar tanto tempo na virtualidade. Tinha medo de perder o senso de diferenciação. Havia sistemas tão completos que poderia se passar a vida inteira sem sair da máquina, não fossem leis de regulamentação que tentavam impedir uma fuga em massa da realidade.
Sua avó, Iara, sabia que o rapaz era muito esperto, e que corria menos risco de acabar tão absorvido pelos sistemas virtuais a ponto de viver uma vida vegetativa. Mesmo assim, diante da sofisticação do novo brinquedo e do ânimo do moço, decidiu intervir delicadamente contando uma história.
- Diguinho meu amor. Venha cá. Quero te contar uma história que sei que você vai gostar.
- Oi vó. Qual é?
- Calma. Empolgado pela nova máquina?
- Puxa vó! Ela é demais. Pena que o sistema não permite mais que 3 horas ininterruptas.
- Por quê?
- São leis aprovadas pelo governo, para impedir que se fique tempo demais na máquina.
- E você queria ficar mais?

- Sei que isso não é muito bom mas... Olha, a realidade virtual é muito útil, nunca aprendi história do Brasil tão bem até o dia que comprei aquele programa que simula o mundo colonial, lá vi como era a vida nos canaviais, nos engenhos. Também já usei um sobre a Grécia antiga, onde até conversei com simulóides de Aristóteles e Platão. Foi daí que passei a gostar de filosofia. Mas é claro que têm gente que passa o dia inteiro com jogos de luta ou em bordéis virtuais fazendo sexo de formas impossíveis.

- É. Como sempre as coisas podem ser usadas de todas as formas, boas ou más.
- É uma pena.
- Bem. Eu queria te contar uma história. Quer ouvir agora?
- Claro! Tenho que esperar a máquina recarregar mesmo!
- Então vamos lá.
- Que história é?
- Bem. Podemos chamá-la de...O mundo da ilusão?


Em algum lugar do passado


Era uma vez uma raça de seres maravilhosos, tão felizes e poderosos que sabiam unir com perfeição o trabalho com a diversão. Viviam num mundo que não eram bem um mundo, mas uma nave, ou uma nuvem, ou um mar de energia.
Eles nem precisavam de formas tão densas quanto os nossos corpos, eram energia luminosa, plasma maleável. Muito inteligentes, todos se ajudavam, se divertiam, cresciam e evoluíam. Se alimentavam da essência pura a sua volta, absorvendo do "ar" tudo o que precisavam.
Havia grandes e sábios líderes que regiam esse mundo, não eram chefes, eram amigos, pais, mães, protetores e guias. Esse mundo era tão bom que nem precisava de leis. A não ser uma.
Havia muitas máquinas fantásticas, não como as nossas, duras, mecânicas e sem vida. Eram máquinas de energia, computadores vivos com consciência, dispositivos diversos muitas vezes construídos só com a força da mente.
O trabalho deles incluía pesquisa, construção e compreensão dos mistérios do universo. Para aprender sobre o cosmos, sobre o infinito, a natureza, sobre Deus e sobre eles mesmos, podiam usar grandes recursos mentais, e algumas máquinas que ajudavam.
Poderosos e bem intencionados cientistas criaram grandes inventos que eram de livre utilização. Propriedade, posse, dinheiro ou qualquer coisa parecida não fazia o menor sentido nesse mundo, tudo era de todos, todos tinham tudo.
As máquinas podiam ser usadas por qualquer um, desde que aprendessem a usá-las, e que todos deveriam reverter algum benefício para a sociedade, para todos.
Tudo era livre e permitido, era apenas orientado e aconselhado, não havia proibições. A não ser uma.
Como todos eram conscientes e bem intencionados, todos queriam o melhor para seus semelhantes, não havia necessidade de restrições. A não ser uma.
Havia uma máquina muito especial, que só era usada pelos mestres. Era uma máquina que a maioria nem sabia o nome ou para que servia, apenas que os mestres aprendiam muito com ela e também se divertiam.
O grande Líder Mãe/Pai disse uma vez.
- Ninguém usará desta máquina até que tenha atingido o estado de mestre!
Intrigados por isso os jovens queriam saber por que, pois buscar o porquê era sua missão, sua vida e a coisa mais importante. Aprender.
- Por que para quem ainda não domina totalmente a si próprio, essa máquina é muito perigosa, pode trazer até a morte! - Diziam os sábios anciãos.
Morte! Isso não fazia muito sentido para eles, viviam para sempre, apenas se renovavam voltando a ser crianças de vez em quando, para que o mundo sempre fosse maravilhoso e desafiador e para que não existisse o tédio. Mesmo que muitos esquecessem da maior parte de seu passado quando se renovavam, todos sabiam que a verdadeira e grande vida continuava, que aprender de novo era sempre um prazer, uma benção.
Os jovens aceitavam a regra, um pouco tristes e intrigados mas obedeciam, pois sabiam que os antigos eram muito inteligentes e sapientes. E que eles, os jovens, ainda precisavam aprender muito.
Mas nem todos se conformavam, alguns embora bem intencionados, eram curiosos demais e precisavam saber o que era. Sabiam que os jovens aprendiam e cresciam cada vez mais rápido e talvez já estivesse na hora de descobrirem o grande mistério.
Justificavam sua inquietude dizendo que as vezes seus pais e mães os subestimavam, e embora não gostassem de desobedecê-los acreditavam que seria benéfico para todos se eles também usassem a máquina.
Um jovem dizia. - Talvez precisem saber que já somos crescidos.
Outro achava. - Talvez seja um desafio, para ver se temos coragem de descobrir por nós mesmos.
E outro - E se na verdade for um teste? Talvez queiram que desobedeçamos.
- Acho que devíamos dar uma olhada. O que há para temer? A tal de morte?
E assim muitos jovens decidiram escondidos, ir até uma destas máquinas proibidas. Não eram vigiadas, os líderes contavam com a obediência e compreensão de todos, não foi difícil para os espertos e engenhosos jovens enganarem a todos e se apoderarem de algumas máquinas por pouco tempo.
Eles se reuniram em um lugar secreto e contemplaram uma das máquinas. Ela poderia ser chamada de "Máquina dos Sonhos", "Máquina de Ilusão", e era maravilhosa. Os jovens logo perceberem que podiam entrar na máquina e lá dentro qualquer desejo se tornava realidade. Eles imaginavam uma nave, e ela surgia. Queriam um planeta, e ele aparecia. Desejavam se tornar estrelas flamejantes, e conseguiam.
Mas nada era real, apenas dentro da máquina tinham essa sensação fantástica. Sabiam que do lado de fora tudo era como antes mas nela, no interior dessa máquina proibida, eles podiam ser o que quisessem, podiam crescer de um instante ao outro, podiam ser líderes, criar mundos para governar sabiamente, era apenas diversão é claro. Mas também podiam aprender muito.
- Mas o que é que têm de perigoso nessa máquina? - Era o que eles se perguntavam.
- É só uma brincadeira!
- Podemos aprender e nos divertir! Só isso!
- Viram só! Eu não disse!
- Vamos contar aos antigos?
- Acho que não há problema.
- Não! Melhor não! E se eles nos tomarem as máquinas e as esconderem?
- Têm razão. Melhor usarmos em segredo.
- Ninguém vai desconfiar e se depois alguém descobrir e só dizer que...
- Usamos muitas vezes e nunca aconteceu nada perigoso!
- É isso!
- Eu sabia que não tinha problema.
E no princípio não houve mesmo, eles estudavam, trabalhavam e iam brincar com as máquinas escondidos. Um criava mundos com criaturas maravilhosas e se divertia vendo-as brincar, outro criava cidades e templos tão bem detalhados que aprendia como melhorar as construções em que ele trabalhava no mundo real, alguns brincavam que eram líderes e até criavam personagens que os obedeciam alegremente.
Tudo era só brincadeira, mas era tão boa que se tornou importante demais para eles.
O sonhos, as ilusões da máquina, eram tão perfeitos e maravilhosos que a sensação de estar nela era muito melhor que estar no mundo real, que ainda era muito bom, mas eles cada vez queriam ficar mais na máquina.
Com o tempo o passatempo virou hábito, rotina, vício, e ficavam mais e mais criando ilusões e simulações espetaculares. Até que um dia seus protetores e guias perceberam que apesar deles parecerem aprender mais, estavam se tornando desinteressados pelo trabalho, estudo e lazer reais.
Chamaram-lhes a atenção mas de pouco adiantou, continuaram mais e mais dependentes do mundo de ilusão que eles mesmos criavam, afinal realizavam todos os seus sonhos lá dentro, e já não viam mais graça em estudar, trabalhar ou construir no mundo de verdade, pois a ilusão superava tudo. Afinal, no mundo dos sonhos eles eram deuses.
Um dia foram descobertos.
- Vocês desobedeceram! E usaram a máquina proibida! Por quê?!
- Queríamos saber o que era, e descobrimos que não há perigo.
- Sim, já as usamos há muito tempo e como podem ver não aconteceu a morte!
- Vocês sabem o que é morte!
- ???
- Acho que é...
- Quando alguma coisa acaba?
- Sim! Quando algo termina ele morre. O que morreu em vocês foi sua vontade, sua colaboração, de brilhantes estudantes passaram a alunos relapsos, de grandes trabalhadores passaram a obreiros desinteressados, de perspicazes inventores tornaram-se sonhadores medíocres. Essa é a morte!
Os mestres perceberam que as idéias destes jovens eram agora tão diferentes que seus colegas se confundiam. Não podiam mais continuar trabalhando, precisavam de uma recuperação. Então conciliaram.
- Eles precisam recuperar sua vontade e eficiência.
- Precisam parar de usar a máquina, não estão preparados.
- Vamos destruir as máquinas?
- Não, elas são muito úteis para nós visualizarmos nossos futuros projetos.
- Sim, a culpa não é da máquina.
- O que faremos? Reeducação?
- Para jovens como eles a privação repentina da máquina poderia ser muito prejudicial.
- Acho que não temos escolha. Se quisermos o bem para nossos filhos teremos que ser severos.
- Sim! Vamos lhes tirar as máquinas. Escondê-las e vigiá-las.
- Sim. Não temos escolha.
Talvez tenha sido um erro dos anciãos mas o fato é que eles decidiram proibir os jovens de entrar na máquina. Foi um terrível choque para eles, sem perceber tornaram-se tão dependentes da máquina que não suportavam a idéia de viver sem ela.
- E agora?! Como vamos fazer!?
- Vão nos tirar as máquinas de sonho!
- Não é justo!
- Teremos que voltar a trabalhar e estudar.
- Mas como vamos nos divertir?
- Nada mais será como antes.
- Não consigo me imaginar sem meu mundo ilusório de luas coloridas.
- E eu sem minha montanhas encantadas.
- E como ficarei sem poder rever minhas crianças douradas do mundo dos sonhos?
- Não podemos aceitar isso.
- Mas eles vigiarão as máquinas, se entrarmos nos tirarão.
- Esperem! Eu tenho uma idéia. Vamos entrar nas máquinas e não sairemos mais.
- Como? Eles podem nos tirar!
- Só se quisermos sair!
- Só se permitirmos.
- Uma vez na máquina podemos desejar firmemente não sermos tirados.
- Mas de que jeito?
- Eu tenho a solução!
Havia algo nas máquinas, que era a única coisa que não permitia que as ilusões fossem absolutamente reais e perfeitas. O fato de se saber que se está num mundo de fantasia, desvaloriza o sonho por melhor que ele seja, e isso era simbolizado por uma minúscula luzinha branca que estava sempre em algum ponto do mundo de ilusão que qualquer um criava, era a saída.
Todos sentiam que aquela luzinha as vezes quebrava o encanto, era uma implacável lembrança de que aquilo que eles viviam não era real. As vezes eles gostariam de esquecer da realidade, e se entregar totalmente aos mundos maravilhosos que criavam.
Houve uma vez quem sugerisse. - Por que não fechamos a saída? Apagamos a luz?.
- Por que é muito perigoso. - O outro respondia. - Poderíamos ficar presos ao mundo do sonho e nunca mais voltar a realidade.
Mas foi isso que decidiram fazer, enquanto a luz estivesse ali, alguém poderia vir atrás deles e convencê-los a voltar. E importante saber também que nas máquinas de ilusão os mundos se mesclavam, um podia viver no sonho do outro, misturando suas realidades. Se um ancião viesse poderia destruir sua ilusão para força-los a voltar, talvez até criar uma ilusão desagradável para faze-los querer voltar ao mundo real.
Depois de conseguirem pela última vez entrar na máquina, era inevitável que em breve seus guias e protetores viessem buscá-los. Então discutiram.
- Se fecharmos a saída podemos ficar presos!
- Podemos nunca mais voltar a ver nossos pais e mães, nossos amigos.
- Mas se deixarmos nos tirarem daqui não mais voltaremos à máquina.
- Eu não posso viver seu meu mundo.
- Nem eu.
- Podemos recriar nosso mundo real aqui, melhorado.
- Até mesmo nossos amados líderes podem ser simulados, perfeitos e menos severos.
- Está decidido. Nós preferimos ficar.
E apagaram a luz, fecharam a porta.

Os anciãos entraram em desespero, sabiam que era questão de pouco tempo até que os jovens se esquecessem totalmente de quem eram. A saída, a luzinha, nada mais era senão o símbolo do desejo de voltar e a lembrança da realidade. Com ela apagada, as crianças se esqueceriam, e mesmo que quisessem, não poderiam mais voltar, não achariam o caminho.
Depois de muito tempo e discussões, decidiram enviar mensageiros para dentro das máquinas, para convencê-los a voltar. Sabiam que não podiam trazê-los a força, tinham que tentar um outro meio.

Os seres deste belo mundo, mesmo os jovens, eram dotados de grande poder de concentração e visualização. Conseguiam compreender as coisas numa velocidade absurda para nós seres humanos.
Se um jovem daquela raça viesse para o nosso mundo, a Terra de hoje, desvendaria facilmente grandes mistérios que intrigam nossa ciência, seria capaz de realizar instantaneamente cálculos difíceis até para nossos computadores e compreenderia as leis que regem a natureza com a espontaneidade de quem entende as regras de um jogo simples.
Por isso eles usavam a máquina de ilusão tão bem. A máquina não seria fácil de utilizar para nós simples mortais, pois requeria grande potencial imaginativo e de concentração.
Tente imaginar um carro, você consegue simultânea e imediatamente visualizar todas as suas peças?
Consegue ao mesmo tempo se concentrar em detalhes do motor, dos mecanismos elétricos, até mesmo os desenhos dos sulcos das rodas?
Nós não vemos isso com clareza, teríamos que imaginar parafuso por parafuso, porca por porca, e ir lentamente montando tudo até termos um carro completo.
E as leis físicas que regem o comportamento do carro? Você consegue compreendê-las perfeitamente? Gravidade, inércia, atrito, e tudo que tornaria uma simulação de um carro numa pista perfeita.? Quanto tempo demoraria para conseguir criar algo assim numa máquina que faz absolutamente tudo o que você imaginar?
Esses jovens podiam! Eles conseguiam se concentrar tão profundamente que em segundos criavam prédios, em minutos criavam vales e rios, em horas planetas e em alguns dias seres vivos altamente complexos.
Os mundos de ilusão criados por eles eram absurdamente complexos e completos, algo inimaginável para nós seres humanos. Mas havia um problema.
Esse grande poder de concentração era fruto da prática e treinamento no mundo real, lá apesar de ser um lugar maravilhoso, inimaginável para nós atuais terrestres, ainda tinha suas dificuldades, obstáculos que precisavam ser vencidos, desafios a serem superados, que mantinham a mente treinada.
No mundo de ilusão tudo era mais fácil, e com o tempo suas capacidades de visualização e concentração foram atrofiando por falta de prática. E eles não eram mais tão bons.
Enquanto antes imaginavam e criavam uma catedral com 7 belas torres, agora a catedral surgia com 8 ou 6, quando antes visualizavam uma montanha na forma perfeita do rosto de uma pessoa querida, agora o rosto já surgia lembrando outra pessoa, quando um deles pedia uma fruta com um sabor rico de muitas misturas, agora o sabor vinha apenas parecido, mas não igual.
Mais e mais as coisas no mundo dos sonhos iam ficando difíceis, não era mais tão simples criar.
- Estamos perdendo a prática.
- Sim, não consigo mais fazer criaturas tão bem quanto antes.
- Está tudo mais difícil.
- Não temos mais a mesma técnica.
- Que faremos? Como aperfeiçoaremos nossa mentes?
- Vamos tornar tudo mais desafiador!
- Como?
- Precisamos de um pouco de dificuldade, para nos obrigar a um maior esforço.
- Só mesmo voltando ao mundo real.
- Correria o risco? De não poder voltar?
- Podemos treinar aqui mesmo!
- Sim, podemos estabelecer regras.
- Dificuldades propositais para nos manterem afiados sempre solucionando problemas.
- Boa idéia, vamos criar regras de limitação, isso nos obrigará a pensar mais.
E então eles passaram a se impor dificuldades, criaram obstáculos a serem vencidos, num mundo onde tudo era possível, tudo continuou a ser possível, só que menos fácil. Para evitar a confusão entre criações de diferentes criadores estabeleceram que duas coisas não podiam ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Para obrigar a reaproveitar criações antigas, e não apenas entulhar as velhas sempre criando novas, determinaram que nada poderia ser criado ou destruído, tudo deveria ser transformado. Para que todos partilhassem dos mesmos benefícios e que suas criações pudessem se interrelacionar, concordaram que tudo deveria interagir, atraindo-se em maior ou menor grau de acordo com a quantidade de energia contida em cada coisa.
Precisavam de soluções mais elaboradas, tiveram mais desafios e realmente funcionou, suas mentes recuperaram um pouco da suas esplêndidas faculdades, ou pelos menos passaram a perdê-las mais lentamente. Mas ainda assim, não era a mesma coisa.
Um dia alguns anciãos vieram.
- Vocês precisam voltar! O mundo real está lá fora, tudo aqui é ilusão.
- Não queremos voltar.
- Aqui temos de tudo.
- Mas vocês estão cada vez menos brilhantes, suas capacidades estão degenerando!
- Estavam! Conseguimos remediar a situação.
- Sim. Criamos regras, leis, diretrizes.
- O quê? Vocês desobedeceram a única lei em nosso mundo, e agora estão dispostos a se submeter a várias?
- É diferente, são leis maleáveis e de outra natureza, possuem um objetivo diferente.
- Não queremos proibir, apenas tornar tudo mais interessante.
- Ah! As proibições tornam as coisas interessantes não é?
- Jamais devíamos ter proibido a máquina.
- São leis de outra natureza.
- Vocês não entendem.
- Todas as leis são iguais. Não passam de proibições.
- Apenas algumas são mais difíceis de violar do que outras.
Não foram poucos os jovens que fugiram para o mundo da máquina dos sonhos. Era um número muito grande. Pouquíssimos concordaram em voltar, alguns não perdiam tanto suas capacidades quanto os outros mas a maioria, estava regredindo.
Passaram a se casar e se reproduzir e seus filhos, acostumados a viver num mundo de ilusões onde apesar das novas leis, tudo ainda era mais fácil, cresciam sem os desafios que fizeram seus pais ser o que eram. E embora incomensuravelmente mais dotados que as pessoas de nosso mundo real, não mais se comparavam as pessoas daquele mundo real, fora da máquina dos sonhos.
Mesmo com as dificuldades as mentes iam enfraquecendo, mais leis foram criadas na tentativa de impedir a degeneração, num dado momento perceberam que tais leis estavam aprisionando as mentes, impedindo-as de usar suas reais capacidades, aboliram muitas delas e perceberam que muitos não mais viviam sem elas. Eram suas guias num mundo onde cada pensamento, até mesmo uma distração, podia resultar em alguma criação desagradável, maligna. E surgiram coisas realmente ruins.
Sem as leis alguns degeneravam ainda mais e mais rápido, outros perdiam totalmente o senso de direção, não sabiam mais como fazer ou o quê fazer. Novas leis foram criadas e modificadas.
Havia aqueles que se mantiveram livres, com a mente livre e poderosa, se tornaram guias para os demais, líderes. Alguns conseguiram voltar ao mundo real, outros seguiram os antigos que jamais desistiram de vir buscá-los. Mas a maioria das crianças nascia cada vez mais atrofiada mentalmente, afinal nem precisavam mais criar, já havia tantas coisas criadas, era só reaproveitar ou pedir. - Crie um brinquedo para mim mamãe! - Poucos respondiam. - Por quê você mesmo não cria meu amor?
Se antes era preciso muito esforço mental para construir do nada uma casa, agora só era preciso pegar pedaços de outras, ou pedaços de outras coisas como árvores, pedras. E o poder de criação foi diminuindo geração após geração.
Eram comum alguns contarem que os antigos criaram a terra em que viviam, os rios, as nuvens, e esses antigos passaram a ser divinizados. Muitos dos que conservavam seus dons antigos, na verdade agora verdadeiros super poderes para os atrofiados, tentavam resgatar o dom de seus companheiros, ensinando-os a redescobrir suas capacidades.
- Olhem para dentro de vocês mesmos! O poder de criação está aí! Em vocês! O resto tudo é ilusão!
Alguns ouviam e aprendiam, alguns recuperavam seus dons e eram considerados semideuses, feiticeiros, magos. Mas a maioria apenas venerava seus novos mestres, achando que libertariam sua mente apenas seguindo-os cegamente.
Os puros, não atrofiados pela ilusão, diziam.
- Conheçam a si mesmos, lembrem-se de quem vocês são! Lembrem-se de onde vieram!
Mais e mais as pessoas nasciam degeneradas, haviam criado corpos para si mesmos não sabiam quando, tão densos que eram difíceis e desconfortáveis mas não mais sabiam viver sem eles, a maioria.
Havia leis que os aprisionavam no chão, tudo que era jogado para cima caía. Agora absorviam energia ingerindo coisas, não mais transmutavam a essência pura.
Os dirigentes do mundo da ilusão, ainda pouco degenerados, criaram leis radicais na tentativa de reverter a situação, quanto mais o tempo passava mais as pessoas atrofiavam suas mentes. Tentativas terríveis foram feitas para abrir os olhos dos demais.
Foram mandados acontecimentos desagradáveis, além do controle daqueles que haviam adormecido, para que através do sofrimento vissem que havia alguma coisa errada e se voltassem para a libertação. Mas muitos se apegavam a suas "coisas", entravam em desespero e apenas imploravam ao "deuses" que tivessem piedade.
Cada vez mais as mensagens dos ainda iluminados eram menos entendidas, e ao invés de seguir seus exemplos, eles apenas os seguiam.
Alguns diziam. - Desejar o que está a nossa volta e desejar ilusões, jamais serão satisfeitos, olhem para seu próprio interior, a resposta, a libertação está dentro de vocês. Precisamos destruir os bloqueios que aprisionam nossas mentes e voltar para o mundo real, da felicidade, o mundo de nossos pais.
Mas a maioria achava que era apenas se submeter a eles que voltariam a esse tão falado mundo maravilhoso, a esse paraíso.
Alguns antigos, do mundo real também tentavam ajudar. - Conheçam vocês mesmos, conheçam seu EU verdadeiro, só ele e a libertação.
Mas a maioria não entendia.
Um deles disse. - O EU, o verdadeiro "eu", é o caminho, a verdade e a vida.
Mas a maioria entendia que o eu era ELE, o mestre, que era o caminho a verdade e a vida, e passaram a adorá-lo, a venerá-lo, bajulá-lo, pois só por ele voltariam ao mundo original, ao mundo real, ao Pai.
O mestres estavam em toda parte, poucos discípulos conseguiam se libertar e voltar ao mundo original, ao paraíso. A maioria apenas venerava os mestres, exigindo demonstrações de poder, levando oferendas a deuses que a muito tinham ido embora.
Muitos mestres ainda manipulavam os fundamentos do mundo da ilusão, conseguiam criar e transformar, violar a gravidade e levitar, sumir em um local e surgir em outro, mover as águas só com um gesto, pois ainda compreendiam como funcionava a máquina dos sonhos.
Mas ainda assim esses demais evoluíram, cada vez mais esquecidos de sua origem mas mais aplicados em compreenderem seu mundo ilusório que para eles era real, não todos claro, mas aprenderam a dominar as leis físicas e criar coisas com outras coisas, ilusão acima de ilusão, mas que funcionavam. E para eles essa era a única verdade.
Os mestres eram poucos e sabiam que poucos voltariam ao mundo original, um dia talvez a máquina da ilusão teria que ser desligada, mas que diferença faria? Seu mundo real também não tinha leis? Seria seu mundo real também outra ilusão com regras?
Deixaram muitos ensinamentos para a posteridade, a maioria em livros que nada mais eram que objetos de ilusão, contendo palavras que podiam ser proferidas por gargantas ilusórias e se perdiam no ar que também é ilusão, elas podiam apenas apontar a Verdade mas muitas pessoas as tomavam como "a" verdade. Como se palavras pudessem aprisionar a essência da mente.
Os restantes não mais controlavam a máquina do sonho, eram controlados por ela. Cada vez mais acreditavam que a ilusão era o real, até por fim estarem tão condicionados as leis, que não mais concebiam algo diferente. Estavam presos a matéria, até por fim duvidar de que eles mesmos existiam, achar que na verdade sua vontade, sua consciência, nada mais era que um fenômeno resultante da matéria.
E alguns inverteram a única verdade...
De que apenas a mente existe, o resto é ilusão.


De volta para o futuro


Diguinho terminou de ouvir a história de sua avó. E foi de volta a sua máquina de realidade virtual que apesar de tão sofisticada não se comparava a aquela tal máquina do mundo da ilusão.
E agora? Sentia uma culpa ao se reintegrar ao mundo virtual, mas ele era muito melhor que o mundo real, não foi assim que os jovens da história pensaram?
Ele poderia ir brincar na rua, jogos de verdade, mas e o risco? De ser assaltado numa cidade cada vez mais violenta, de ser agredido por aquelas inumeráveis gangues de idiotas, ou ser atropelado por um motorista maluco?
Isso sem falar naqueles carros aéreos que vivem batendo nos céus e despencando em cima dos outros. Pilotos embriagados! Pelo menos em casa era mais seguro.
Ele sabia que estava longe o dia que os sistemas de realidade virtual seriam tão bons quanto aquela máquina dos sonhos. Ele queria ter uma máquina como aquela apesar do perigo.
E evidentemente ele já tinha, assim como todos nós.

Marcus Valerio XR
27 de agosto de 1999